BIOGRAPHY
WORKS
2010-2014
2000-2009
1990-1999
1980-1989
1970-1979
TEXTS
CONTACTS
  Anthology of texts on Pedro Chorão
in Portuguese and English

Um olhar retrospectivo revela-nos um pensamento maduro e sedimentado, como as terras estratificadas que se vão constituindo como memória não só táctil, produto de exercício constante do olhar, mas também factual, as referências idiossincráticas e autobiográficas inevitáveis em qualquer autor, mas sobretudo a alusão assumida às genealogias estéticas e culturais que o enquadram, por direito natural, num pensamento artístico muito mais amplo (...)
Paulo Henriques, catálogo da exposição retrospectiva "Pintura 1971-2009", Câmara Municipal do Fundão, 2009

A retrospective view shows us a mature and sedimentary way of thinking, like stratified rock, which constitutes a memory not only tactile, the result of the continual exercise of looking, but also factual, the idiosyncratic and autobiographical references inevitable in any artist, but above all a professed allusion to esthetic and cultural genealogies which, by natural right, frame a broader artistic way of thinking…
Paulo Henriques, catalogue of the retrospective exhibition "Pintura 1971-2009", Câmara Municipal do Fundão, 2009


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Pedro Chorão delimitou muito cedo o seu campo de trabalho - e, ao de leve, insiste no seu canto sempre recomeçando, sempre luminoso, surpreendente, claro (...)
Jorge Silva Melo, "O recibo da vida", catálogo da exposição retrospectiva "Pintura 1971-2009", Câmara Municipal do Fundão, 2009

Pedro Chorão defined the boundaries of his field of work very early on – and, gently, persisted in his own canto, always starting anew, always luminous, surprising, light…
Jorge Silva Melo, "O recibo da vida", catalogue of the retrospective exhibition "Pintura 1971-2009", Câmara Municipal do Fundão, 2009


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Pedro Chorão realizou a sua primeira exposição individual na prestigiada Galeria da Emenda em Lisboa, em 1975, o ano seguinte ao 25 de Abril. Tinha então trinta anos e pertencia a uma geração de jovens portugueses que, na década de 1960 e 1970, tiveram como fundo da sua existência uma apavorada ansiedade devida à obrigatoriedade de um serviço militar cumprido no cenário da guerra que Portugal mantinha nas colónias, missão de grade risco, com frequência da própria vida. Esta luta pela manutenção de um Império, o último da Europa, contra a vontade independentista dos povos das colónias, era considerada politicamente inútil pelos jovens que a recusavam procurando lugares de exílio. Como foi também comum a esta geração, Pedro Chorão tentou ultrapassar as carências de Portugal, então lugar de política e cultura claustrofóbicas, e cumpriu as necessárias itinerâncias fora do País, permanecendo em Liverpool, entre 1963 e 1967, e em Paris, entre 1967 e 1968, regressando depois para cumprir o serviço militar em Cabo Verde, posto contudo afastado dos mais dramáticos teatros de guerra, Angola, Moçambique e Guiné. De novo em Lisboa, conclui a Licenciatura em Pintura na Escola de Belas Artes em 1976, partindo para Paris, agora como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian até 1977, aí regressando com o mesmo estatuto no ano seguinte. Desde 1975 até à actualidade, Pedro Chorão inscreveu na produção artística em Portugal uma postura ética de grande rigor, avesso, mesmo por temperamento, à exploração mediática de si ou do seu trabalho, sentindo o exercício da pintura como necessidade íntima, a sua obra gerindo-se numa continuidade discreta, desenhando para si próprio uma relação quase amorosa com a pintura, atitude romântica residual e rara na contemporaneidade. À data da sua primeira exposição individual, com trinta anos, o artista tinha já um discurso plástico bem estruturado numa apologia de elementaridades expressivas, desenvolvida com grande coerência até à actualidade: a preferência por materiais pobres, pela austeridade dos gestos de registo e mesmo pela escolha dos elementos visuais capazes de dar visibilidade ao núcleo central da sua poética – a evocação abstracta do espaço através das geometrias dos planos da pintura, das profundidades das manchas de cor e das atmosferas da luz. Um olhar retrospectivo revela-nos uma estrutura longamente sedimentada, um pouco como as terras estratificadas que, embora nos mostrando diferentes momentos da sua evolução pela coloração das camadas, mantém sempre a referência primeira, ou seja, a Terra. De resto este elemento parece presidir à imaginação simbólica de Pedro Chorão, a exploração dos espaços radicando numa memória da paisagem, os materiais rústicos em memória de uma realidade primeira e essencial. O processo de trabalho do artista desenvolve-se em ciclos temáticos, não tanto por incidências iconográficas mas por exploração de temas plásticos que obviamente conduzem a diferentes estruturas de sentido. De modo simples, mas com máxima capacidade expressiva, os planos sugerem aproximações e distâncias, lugares de dentro e fora, terra e ar, referências que potenciam uma infinidade de situações vivenciadas mas que não se prendem a nenhuma descrição. A exploração desta ambiguidade espacial conduz a uma imensa evocação de significados – rasgos de luz no cinzento de uma penumbra ou mesmo no negro de uma noite, o olhar de um interior soturno para uma paisagem luminosa, a relação fundamental entre céu e terra, a água como referência de mar.
Paulo Henriques, introdução ao catálogo da exposição retrospectiva "As Formas do Gesto", Casa da Cerca, Almada, 2002

Pedro Chorão held his first solo exhibition in the prestigious Galeria da Emenda in Lisbon in 1975, the year after 25 April [date of the Carnation Revolution which ended authoritarian rule]. He was then thirty years old and belonged to a generation of young Portuguese who, in the sixties, lived under the shadow of fear caused by obligatory military service, at that time mostly served in the war zones of Portugal's colonies. The young men could be involved in very risky missions, often at the cost of their own lives. This fight to maintain an Empire, the last in Europe, against the independent will of the people of the colonies, was considered futile by many of them who rejected it and went into exile. As was also normal with this generation, Pedro Chorão tried to break away from the limitations of Portugal, at that time a place of political and cultural claustrophobia, and went on the necessary tours outside the country, living in Liverpool from 1963 to 1967 and in Paris from 1967 to 1968, returning afterwards to complete his military service in Cape Verde, a posting that was, however, well away from the most dramatic war zones of Angola, Mozambique and Guinea.
Back in Lisbon he finished his degree in painting at the Escola de Belas Artes in 1976, then left for Paris, now with a scholarship from the Calouste Gulbenkian Foundation, and returned there the following year on the same basis. 
From 1975 until the present day Pedro Chorão has taken a rigorous ethical position in the artistic world of Portugal, averse, also temperamentally, to media exploration of himself or his work, feeling the act of painting to be something intimate, devoting himself to his work with a low-key continuity, creating for himself an almost loving relationship with painting, a romantic attitude that is rare today.
At the time of his first solo exhibition, when he was thirty, the artist already had a well structured plastic discourse in an apologia for the expressivity of basics, something he has been developing consistently up to the present day : a preference for simple materials, for an austerity of register and even of a choice of visual elements capable of making the central nucleus of his poetics visible – an abstract evocation of space through the geometries of the planes of the picture, the depth of the colours and the atmosphere of light. A retrospective view shows us a long sedimentary structure, a bit like stratified rock which, although showing us the different ages of its evolution in the colours of its layers, always maintains its basic reference, that is, to the Earth. Apart from that, the element that seems to govern Pedro Chorão's symbolic imagination is the exploration of spaces rooted in the memory of a landscape, with simple materials in memory of an essential primary reality. The artist's process of work develops in thematic cycles, not so much through iconographic incidents as through the exploration of plastic themes, which obviously lead to different structures of meaning. In simple ways, but with maximum expressivity, his planes suggest closeness and distance, interior and exterior spaces, earth and air, references which potentiate an infinity of experienced situations but which do not lend themselves to any description. The exploration of this spacial ambiguity leads to an immense evocation of meanings – strips of light in the grey of a shadow or even in the black of night, the view of a gloomy interior through a luminous landscape, the fundamental relationship between sky and earth, water as a reference to the sea.
Paulo Henriques, introduction to the catalogue of the retrospective exhibition « As Formas do Gesto », Casa da Cerca, Almada 2002


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Afirmada solitariamente nos difíceis anos 70, parcialmente ocultada pelas promoções de 80, a pintura de Pedro Chorão vai impondo a sua resistência ao tempo, crescendo com o tempo, como as obras que importam.
Alexandre Pomar, Expresso, 17 Novembro 1994

A solitary look at the difficult years of the 70s, partially obscured by the advances of the 80s, Pedro Corão's painting continues to impress with its resistance to time, growing with time, like all works which matter.
Alexander Pomar, Expresso, 17 November 1994


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De um minimalismo exemplar, conceptualmente rigorosas, cada peça de Pedro Chorão vem propor aos teóricos e aos fundamentalistas das movimentações estéticas um espaço despreconceituoso para a arte, lugares onde podemos agilizar as nossas concepções do mundo, a nossa sensibilidade sobre o visível.
Rocha de Sousa, Jornal de Letras, 21 Dezembro 1994

Works of exemplary minimalism, conceptually rigorous, each of Pedro Chorão's pieces offers the theoreticians and the fundamentalists of esthetic movements a space without preconceptions, places where we can improve our conceptions of the world, our sensitivity to the visible. Rocha de Sousa, Jornal de Letras, 21 December 1994

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Vendo bem, os quadros de Pedro Chorão são feitos de um quase nada, os mais feitos, em meu entender. O que é, logo, o mais difícil de tudo para um pintor, e ainda mais de reparar, se não é isso apenas um assomo hábil, mas mais precisamente, um despojar-se, um significar-se sem ênfase, saber que o muito se reduz ao tamanho da sua verdade na perseguição que se faça ao encontro do essencial.
Se se pudesse imaginar todos os quadros de Pedro Chorão em contiguidade ininterrupta, sem intervalos entre eles, veríamos que esta unidade, assim total, é a mesma que cada um contém em si, separadamente dos outros.
Fernando de Azevedo, introdução ao catálogo da exposição individual na ESBAL, Lisboa, Março de 1979

Looking carefully, Pedro Chorão's pictures are made of almost nothing but nevertheless are, in my opinion, all the more accomplished. This self revelation, this sense of purpose without emphasis, the knowledge that most things can be reduced to their true basics in pursuit of the essential - rather than a mere expression of skill - is the most difficult thing of all for a painter and it is even more difficult for the viewer to appreciate. If you can imagine all Pedro Chorão's pictures next to one another, with no gaps between them, you will see that this total unity is also what each picture contains within itself, separately from the others. Fernando de Azevedo, introduction to the catalogue of the solo exhibition in ESBAL, Lisbon, March 1979

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O gesto solto, a tinta líquida, a cor seca, a escrita à flor da luz, signos, colagens e afloramentos figurativos – eis alguns dados caracterizadores da pintura de Pedro Chorão, agora, ontem, talvez amanhã. Mas o quadro de agora, ainda que o pareça; a sua velocidade de formulação corresponde apenas ao fingimento do operador: este reflecte com demora no silêncio solitário de cada espera, inventa o instante, o gesto, a medida, o "acaso", e assume depois a mentira de tudo isso – para dizer a verdade, para dizer a sua verdade. Então a pintura ganha um tempo curtíssimo na relação visual com o espectador, solicita-o para a mesma verdade quase explosiva, vence os segredos intransmissíveis das várias paragens.
Rocha de Sousa, introdução ao catálogo da exposição individual na SNBA, 1981

The free gesture, the fluid paint, the dry colour, luminous writing, signs, collages and figurative outbursts– here are some characteristics of Pedro Chorão's painting, now, yesterday, maybe in the future. The painting is not created immediately, even if it seems to be; its speed of formulation is only a pretence: it slowly reflects on the solitary silence of every hope, invents the moment, the gesture, the measure, the « coincidence » and then admits the deception in all this – in order to tell the truth, to tell its own truth. Thus wihin a very short time the picture wins a visual relationship with the viewer, demanding from him the same explosive truth, surmounting the intransmissible secrets of the various stages.
Rocha de Sousa, introduction to the catalogue of the solo exhibition in the SNBA, 1981


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Vale a pena olhar estes quadros e revê-los também, deixar que o tempo participe, sem pressas, na nossa percepção deles, ir entendendo a vida oculta que se passa sob a superfície aparentemente calma, vale a pena senti-los vibrar com as diferenças de luz. Nesse tempo de olhar e perceber chegará também o tempo de entendermos a persistência do pintor na sua pintura: não um modo de vida, mas um modo de Ser.
José Luís Porfírio, Expresso, Março de 1983

It is worth looking at these pictures, and looking at them again, taking time, without haste, observing them carefully, continuing to listen to the secret life which is taking place under the apparently tranquil surface ; it is worth sensing them vibrate with changes in the light. While we are looking, observing, the time will come when we understand the painter's persistence in his painting : not so much a way of life as a way of being. José Luís Porfírio, Expresso, March 1983

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De certa maneira, há anos que Pedro Chorão pinta o mesmo quadro, acabando nele o que vai começar no outro. Esta identidade do fazer a refazer-se já feito, sendo próprio deste pintor que projecta na alegria dos gestos a angústia da espera deles, é também o equivalente clarificado do mais profundo destino de um artista: cada recomeço não passa de um começo.
Rocha de Sousa, in "Pedro Chorão", Colecção Arte e Artistas, Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1983

In a way Pedro Chorão has been painting the same picture for years, finishing in one what he he is going to begin in the next. The working and reworking what he has already done defines the identity, the basic of essence of this painter, who projects into the happiness of his gestures the anguish of their expectations, and also the corresponding clarification of the most profound destiny of a painter : each new start is only a beginning.
Rocha de Sousa, in "Pedro Chorão", Colecção Arte e Artistas, Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1983


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É como se o pintor, ao intentar pintar os seus quadros, voltasse de vez em quando atrás para se certificar. Não por insegurança, mas por escrúpulo. E este voltar atrás, não é bem o voltar atrás, o desdizer-se: é voltar ao princípio. E, ao princípio, talvez tenha sido o desenho...Fernando de Azevedo, introdução ao catálogo da exposição "Pedro Chorão", Loja do Desenho, Lisboa, 1988

It is as though the artist, while painting his pictures, moved back from time to time in order to check them. Not because of insecurity, but out of scrupulousness . And this move back is not a move back in the sense of going back on one's word : it is a return to basics. And to a basis that was perhaps drawing……..
Fernando de Azevedo, introduction to the catalogue of the exhibition "Pedro Chorão", Loja do Desenho, Lisbon, 1988


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Eis uma pintura que parece esquecer-se de si. A luminosidade rompe da sua construída simplicidade; Eis uma pintura que parece, de facto, esquecer-se de si. As suas condições reais – enquanto condição de percepção – surgem de uma forma subvertida, surgem de uma forma que nos ilude e nos faz tomar a interpretação linear – verticalidade da cor, o quadrado, as crescentes ogivas – , por uma construção de perspectiva. Tudo isto como se a forma pudesse definir um contorno de figura, mas tal não sucede, pois a forma tem menos poder do que a cor. É a cor que nos leva à imagem, o mesmo será dizer: é a cor que nos leva à determinação da pintura. Pintura que se quer, com Pedro Chorão, de uma forma hipostasiada e quase recorrente de um anonimato de existência.
João Miguel Fernandes Jorge, O Independente, 24 de Março de 1989

Here is painting that seems to forget itself. The luminosity wells up from its constructed simplicity ; here is painting that really seems to forget itself. Its true capacities – as a capacity of perception – come from a subverted form, come from a form which evades us and makes us take a linear interpretation – the verticals of colour, the square, the rising ogives -, when constructing the perspective. It is as if the form could define the outline of a figure, but cannot succeed as such, because the form has less power than the colour. It is the colour which leads us to the image, that is to say, it is the colour which brings us the resolution  of the painting. Painting which enjoys, like Pedro Chorão, a hypostasised form almost appealing against the anonymity of existence.
João Miguel Fernandes Jorge, O Independente, 24 March 1989


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Pedro Chorão começa a pontuar as suas colagens de pequenos detritos que são, ainda, um extremo movimento de comunicação: rótulos de correio, bocados de jornais, restos de palavras que nos falam do mundo. Como a praia ao fim do dia ou, para lembrar Camilo Pessanha: "conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..." E, assim, no precário instala uma estética. E parte – sem partir de todo – a fotografar o Alentejo. É uma procura irresistível do pormenor que o fascina: a tinta esfacelada de uma porta, um azul desmaiado, na parede, pelo sol ardente, uma tábua descorada e ressequida, um graffitti incompleto de criação interrompida. Essa luminosa procura de autenticidade está patente desde o princípio em Pedro Chorão. Que a busque enobrecendo os materiais mais pobres; que, por uma vez, esquecendo a tela, experimente as virtualidades do papel, na forma mais despojada e rudimentar: tudo isso se inscreve na recusa do artifício, pela procura do simples ou do essencial.
Alberto Soares, "Uma estética do precário – a pintura de Pedro Chorão", Jornal de Letras, 5 Maio 1989

Pedro Chorão has stared to punctuate his collages with little bits of debris which are, even so, extremely communicative: postal labels, pieces of newspaper, scraps of words which talk to us about the world. Like the beach at the end of the day, or, recalling Camilo Pessanha : " shells, pebbles, little bits of bone…. " And in this way he sets up a delicate esthetic. And has stopped – though not completely- photographing the Alentejo. It is the irresistible quest for detail which fascinates him: the crumbling paint of a doorway, a faint blue, on a wall, in the burning sun, a faded, dried-out board, an incomplete graffiti, its creation interrupted. Pedro Chorão's luminous quest for authenticity has been obvious from the start. He seeks to ennoble the poorest materials ; forgetting canvas for once, he has been experimenting with the potential of paper in its simplest and most rudimentary form : all this is a refusal of artifice, a search for the simple and the essential.
Alberto Soares, "Uma estética do precário – a pintura de Pedro Chorão", Jornal de Letras, 5 May 1989


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Está tudo certo! Este é um universo sem surpresas para quem o conheça, mas não sem possibilidades de um maravilhamento humilde perante as coisas simples e simplesmente certas. Nestas pinturas vamos encontrar o habitual colóquio que Pedro Chorão vem tendo com o quadro no seu limite e dimensões: para ele o quadro é uma superfície de matéria sensível, a duas dimensões, enquadrada, limitada, como uma das portas ou das janelas que exaustivamente vem fotografando por todo o Alentejo há já quase dois anos. Esta superfície apresenta-se como tal e não como abertura, de entrada ou de saída, lugar sublinhado com uma calma e constância que nunca se torna em obsessão: ou então é um lugar ocupado; ia a dizer paginado, por repetição de formas outras, círculos, ovais, que não desmancham nem perturbam um esquema sensível preexistente, que noutros trabalhos a inscrição de um T de arquitecto desvenda ainda mais que o habitual. A fragilidade do suporte tira o pendor clássico à expressão deste pintor – essa fragilidade funciona como uma exaltação de uma matéria que como sempre não compõe, constrói-se. Esta é uma pintura de construtor e o seu acerto maior está na serena coincidência da matéria com a emoção.
José Luís Porfírio, "Pintura: lugar de estar, lugar de trânsito", Expresso, 11 Março 1989

Everything is alright ! This is a universe without shocks by which to recognise it , but not without a wonderful humility in the presence of things that are simple and simply all right. In these pictures we are going to find the usual conversation Pedro Chorão has been holding with a picture in terms of its limit and dimensions : for him the picture is a surface of sensitive matter, two dimensional, framed, limited, like one of those doors or windows that he has been exhaustively photographing all over the Alentejo for almost two years. This surface is presented as it is and not like an opening, an entrance or an exit, a place characterised by calm and a constancy which never turns into obsession : or else it is an occupied place ; I was going to say paginated, by the repetition of other forms, circles, ovals, which neither break nor disturb the sensitivity of the preexisting plan, so that in some works the inscription of an architect's T is more than usually revealing. The fragility of the support takes away any classical tendency from this painter's expression - this fragility acts as the exaltation of a material which is, as always, not composed but constructed. It is the painting of a builder and his greatest attainment is the serene coincidence of material with emotion.
José Luís Porfírio, "Pintura: lugar de estar, lugar de trânsito", Expresso, 11 Março 1989


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No registo esquemático de formas elementares, a pintura de Pedro Chorão diz o que não é possível dizer de outro modo; é uma pintura recolhida e silenciosa, que interioriza o que os olhos vêem e as mãos tacteiam, deixando transparecer o processo técnico, na sua extrema simplicidade. A cor, aplicada em manchas informais, dilui parcialmente os contornos de amplas áreas rectangulares e triangulares.
Na sua depuração máxima, a pintura de Pedro Chorão tende para monocromia ou o vazio absoluto, que representa a total libertação do homem.
Eurico Gonçalves, DN, 1 Abril 1993

In the schematic register of fundamental forms, Pedro Chorão's painting says something that is not possible to say in any other way; the painting is withdrawn and quiet, thus internalising what the eyes see and the hands touch, leaving the technical process, in its extreme simplicity, visible. Colour, applied in informal areas, partially dilutes the outlines of the large rectangular and triangular spaces. In its maximum purity, Pedro Chorão's painting tends to monochrome or to absolute emptiness,representing the total liberation of man. Eurico Gonçalves, DN, 1 April 1993

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A pintura de Pedro Chorão forma um iconograma, ou seja, um singular objecto de meditação, cuja metafísica radica na cor transparente e na geometria sagrada. A composição obedece rigorosamente a uma lógica de organização do espaço abstracto, onde ressalta, aqui e ali pelos salpicos e pingos de cor, vislumbres de uma luz que ilumina por dentro estas composições. As formas pintadas seduzem pela exactidão do vazio traçado, não é uma pintura que ilustre ou que se confine em tiques miméticos. É uma pintura austera que perscruta e se interroga sobre os próprios meios da investigação pictórica e do espaço/tempo da representação. É uma pintura que não é tagarela, desenrola-se como um pergaminho, peça a peça, quadro a quadro, com uma enorme contenção plástica. Os olhos, como diria Italo Calvino, não vêem coisas mas figuras.
Emídio Rosa de Oliveira, Visão, 8 Abril 1993

Pedro Chorão's painting forms an iconogram, in other words, a special object of meditation, whose metaphysic is rooted in transparent colour and sacred geometry. The composition rigorously obeys a logical organisation of abstract space, where, here and there through splashes and drops of colour, glimpses of light stand out, illuminating the composition from within. The painted forms fascinate by the accuracy of the space marked out, this is not painting which aims to illustrate or which limits itself to mimetic tics. This is austere painting which examines itself and asks questions about its own means of pictorial investigation and about the space / time of the representation. This painting is not talkative, it unfolds like a parchment, bit by bit, picture by picture, with enormous creative restraint. The eyes, as Italo Calvino said, don't see things but images.
Emídio Rosa de Oliveira, Visão, 8 April 1993


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A pintura de Pedro Chorão alia o mínimo de efeitos com o máximo do seu significado pictórico. Quase nada é dito explicitamente, o gesto e a cor exprimem-se numa radical contenção como se o artista menosprezasse o eventual espectáculo que a pintura propicia. É o gesto apenas esboçado e impreciso do artista que interfere nesta espécie de cosmogonia imprimindo-lhe o seu cunho particularíssimo.
Luísa Soares de Oliveira, Publico, 19 Março 1993

Pedro Chorão's painting combines a minimum of effects with their maximum pictorial significance. Almost nothing is stated explicitly, gesture and colour express themselves through radical restrictions, as if the artist scorned the fortuitous spectacle which paintings can provide. It is only the artist's barely sketched, imprecise gesture which interferes in this cosmogony, impressing on it his own hallmark. Luísa Soares de Oliveira, Publico, 19 March 1993

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O percurso artístico de Pedro Chorão tem-se caracterizado pela perseverança, numa pesquisa alheia a modas teorizações, ou seja, puramente plástica. Esta perseverança, que se pode classificar de austera, tem evitado, por esse motivo, os artifícios de um discurso interpretativo baseado na narratividade.
Luísa Soares de Oliveira, Publico, 19 Março 1993

Pedro Chorão's artistic journey has been characterised by perseverence, in a quest far removed from fashions either in theory or in the purely plastic. This perseverance, which could be described as austere, has, for this reason, avoided the artifices of a discourse based on narrative. Luísa Soares de Oliveira, Publico, 19 March 1993

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A pintura de Pedro Chorão, acedendo a um "minimalismo" ao mesmo tempo afrontoso e esplendoroso, circula eventualmente em torno do "ponto zero" da expressão plástica, vértice paradoxal de todas as misturas aditivas das cores espectrais – o branco. Se calhar, e por isso a total clareza desta obra acaba em enigma, sempre menos decifrável quanto mais se despe de artifícios. O reencontro com Pedro Chorão agora, em 1993, na galeria Palmira Suso, permite-me reiterar quase tudo o que escrevi sobre o autor em 1983, sobretudo na aproximação à sua obra pelo livro da Imprensa Nacional - Casa da Moeda. É o reencontro da permanência, ou seja, o reconhecimento de um modo de formar que assenta na escassez dos materiais e se demora na rapidez que finge. Pedro Chorão pinta quadros exemplares na sua própria génese, desde os processos técnicos à qualidade de espectáculo. No fundo, e como quase sempre em pelo menos três décadas para trás, o autor, mestre das suas opções essencialistas, recupera em cada quadro a peça da "contiguidade ininterrupta" imaginada por Fernando Azevedo: o todo valeria para a parte como a parte para o todo, numa imensa cadeia de diferenças só identificáveis através da semelhança.
Rocha de Sousa, "O Esplendor da Escassez", Jornal de Letras, 30 Março 1993

Pedro Chorão's painting, attaining a « minimalism » at once outrageuos and magnificent, comes around eventually to the « zero point» of plastic expression, the paradoxical apex of all the additive mixing of spectral colours – white. Perhaps that is why the total clarity of this work ends in an enigma, always less decipherable the more it distances itself from artifice. Encountering Pedro Chorão once again, now, in 1993, in the Palmira Suso Gallery, gives me the opportunity to repeat almost everything I wrote about him in 1983, above all in the book from the Imprensa Nacional - Casa da Moeda . It is a reunion with continuity, or, in other words, a recognition of a method of working based on an spareness of materials which tarries over its apparent speed. Pedro Chorão paints exemplary pictures with their own genesis, from the technical methods to the quality of the presentation. Basically, and as almost always in at least the last three decades, the artist, master of his essential options, captures in each picture a fragment of the « uninterrupted continuity » imagined by Fernado Azevedo : the whole is valid for the part just as the part is for the whole, in an immense chain of differences only identifiable by similarities.
Rocha de Sousa, "O Esplendor da Escassez", Jornal de Letras, 30 March 1993


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O que havia, e continua a haver na pintura deste poeta da escassez, é a espera, horas e horas de reflexão branca, como se o autor pudesse acumular inconscientemente a antecipação de todo um fazer, o próprio quadro. Porque quando ele se levanta e coloca a trincha na tela, esse fazer prolonga-se e articula-se sem mácula, quase sem rasura, ou na rasura que é predestinação, que é uma forma de exprimir em plena escassez. À "chegada à quinta" anota em planta e em projecção vertical o traçado de uma estrada, a volta do caminho, talvez paredes, uma árvore ou a terra, um céu e uma nuvem. A nossa chegada a este local não se baseia, contudo, nos possíveis referentes de Pedro Chorão, nem ele os iluminou representativamente para que se denotassem sem grande margem para dúvidas. O que quer dizer que o autor, embora retomando para si nostalgias importantes, não as comunica para nós, não as ilustra, não se torna escravo delas.
Rocha de Sousa, Jornal de Letras, 21 Dezembro 1994

What there was, and continues to be, in the painting of this poet of spareness, is waiting, hours and hours of white reflection, as if the artist could unconsciously accumulate the anticipation of a whole act of creation, his own picture. Because when he stands up and puts paintbrush on canvas, this act of creation lasts and expresses itself faultlessly, almost without obliteration, or with an obliteration which is predestined, a completely spare form of expression. In the «chagada à quinta »  he noted on the horizontal and on the vertical projection the outline of a street, the curve of a path, perhaps walls, a tree or some earth, sky and a cloud. Our arrival at this point is not based, however, on any possible references of Pedro Chorão's, nor did the picture tell us anything about any possible representation that could be understood without a big margin of doubt. Which is to say that that the artist, although returning to memories important to him, does not tell us about them, does not illustrate them, is not their captive.
Rocha de Sousa, Jornal de Letras, 21 December 1994


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As paisagens de Pedro Chorão centradas em conceitos como perto e longe, interior e exterior, peso e imponderabilidade, resultam do exercício apaixonado, perseverante e discreto da pintura desenvolvido há longos anos, numa procura de elementaridade expressiva, por vezes ascética...
Paulo Henriques, prefácio do catálogo da exposição individual "Pinturas de Paisagem", Museu José Malhoa, Caldas da Rainha, 1994

Pedro Chorão's landscapes, revolving around concepts like near and far, inside and ouside, weight and imponderability, are the result of the persistent practice, both passionate and considered, of painting developed many years ago, in the quest for an expressive fundamental, at times ascetic…
Paulo Henriques, preface to the catalogue of the solo exhibition "Pinturas de Paisagem", Museu José Malhoa, Caldas da Rainha, 1994

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A memória do visto ou do sabido cruzava-se com a consciência do que é no princípio, a própria pintura, e, se, por um lado, Pedro Chorão nunca esteve desatento aos sinais modestos de um imediato quotidiano, por outro, permanentemente ia consagrando o seu modo próprio de o fixar, ou seja os gestos do pintor. Diário elementar aí foi registando, com grande austeridade de meios e processos, uma equivalente perspectiva da vida, assumidamente ascética e, assim, essencial.
Paulo Henriques, introdução ao catálogo da exposição individual "Passagem Difícil", Galeria Quadrado Azul, Porto, 1995

The memory of a view or of some piece of knowledge intersected with the awareness of the source, his own painting, and, if, on the one hand, Pedro Chorão was never inattentive to the humble signs of everyday life, on the other hand he constantly dedicated himself to his own way of recording them, in other words, to the gestures of a painter. A simple diary was constantly recording, with great austerity of means and processes, an equivalent perspective of life, avowedly ascetic, and thus fundamental.
Paulo Henriques, introduction to the catalogue of the solo exhibition "Passagem Difícil", Galeria Quadrado Azul, Porto, 1995


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O risco destas pinturas é que o público não dê por elas porque – digamo-lo francamente – é escassa e elitista a nossa cultura plástica. Dizia o historiador Pierre Francastel que é frequente reconhecer-se que se não tem ouvido para a música mas ninguém quer reconhecer que pode não ter olho para a pintura. Mas o olho como o ouvido são educáveis. Começando por transformar o olhar em ver. É preciso ficar perante elas e deixar que o tempo as revele.
Raquel Henriques da Silva, prefácio ao catálogo da exposição individual na Capela da Gandarinha, Cascais, 1996

The risk with these pictures is that the public will not take to them because, putting it frankly, they are spare and elitist. The historian Pierre Francastel used to say that people often admit that they do not have an ear for music, but that nobody wants to admit that they don't have an eye for painting. But eyes like ears can be educated. Starting with changing looking into seeing. One needs to stand in front of the pictures and let time reveal them.
Raquel Henriques da Silva, preface to the catalogue of the solo exhibition in Capela da Gandarinha, Cascais, 1996


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As "manchas" que invadem as telas são ordenadas figuras. Partem de uma visão que se instala e que se deixa dizer, de alma e corpo, através de tons muito claros. Expressa-se o intimismo de uma infância que não se quer perder e que invade com os seus elementos de (pueril) prazer os objectos: os objectos do mar: os barcos. Estes são, em primeiro lugar, recipientes que guardam o bem; e que logo se perdem, para que ainda mais se encontrem na "abstracta" beleza de uma representada vela: o triângulo.
Do prefácio ao catálogo da exposição na Galeria Palmira Suso, Lisboa, 1997

The « smudges » which overrun the canvasses are orderly shapes. They arise from an ordered vision which speaks, body and soul, in very clear tones. They express the intimateness of a childhood which does not want to disappear and which invests objects with elements of (childish) pleasure : things from the sea : boats. These are first of all containers which hold the good; and are then lost, to be seen again in the « abstract » beauty of a representational sail : a triangle.
From the preface to the catalogue of the exhibition in the Galeria Palmira Suso, Lisbon, 1997


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Quando olho para esta pintura, para além, para aquém da breve anedota sensível que ela também quer contar, há um conceito que sempre me ocorre, com mais força e, espero, como mais razão de ser do que em qualquer outro artista português: classicismo.
Este classicismo é o da regra e da emoção de que falava Braque, ele próprio um clássico, ou da "balance" de um Motherwell, outra referência seminal e clássica da obra de Pedro Chorão. Trata-se da regra contida no equilíbrio da página-quadro temperada pela emoção da cor, a regra da construção e a emoção do gesto, do informe de cada gesto em cada mancha, em cada pincelada, na incerteza que continuadamente brinca com o rigor. Nada tão perto, e nada tão diferente, da gestão dos efeitos como esta pintura. A sua necessidade é da construção – Pedro é filho de arquitecto, e isso sente-se –, o seu modo de estar será o da vibração, constante no sentimento da obra, sempre, sempre inacabada, movente como a luz nas pedras, a palavra na boca das pessoas.
José Luís Porfírio, Expresso, 15 Março 1997

When I look at this painting, looking beyond the short sensitive story that it can also tell, there is a concept which always comes to mind, more forcefully and, I think, with more justification than with any other Portuguese artist : classicism. This classicism comes from the rule and emotion that Braque, himself classical, talked about, or from the « balance » of Motherwell, another seminal and classical reference in Pedro Chorão's work. It is about the rule of restraint in the balance of a page / painting tempered by the emotion of colour, the rule of construction and the emotion of gesture, about the information from each gesture in each area of colour, in each brushstroke, an uncertainty that constantly plays with rigour. There is nothing as close to and nothing as different from the management of effects as this painting. He needs to construct – Pedro is the son of an architect and you can sense it – his mode of being is that of a vibration, constant in his feeling for his work, always, always unfinished, moving like light on stones, a word in people's mouths.
José Luís Porfírio, Expresso, 15 March 1997


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Sendo Chorão um mestre do inacabamento das suas pinturas, a questão do sentido que as telas abrem ao espectador não reverte numa experiência da insignificância, aceite como jogo de sociedade; não se parte aqui de um projecto ou ideia a ilustrar, o artista é também um observador da sua própria obra, construída como uma interrogação em acto do seu próprio fazer e oferecida ao espectador interessado e disponível para que a prolongue. Contando com a memória de um itinerário criativo que ao longo dos anos 90 iluminou com renovados sentidos a coerência de uma obra já longa, é particularmente gratificante circular entre o que vai sendo paisagem, natureza-morta ou intrigante simbiose entre interior e exterior.
Alexandre Pomar, Expresso, 30 Janeiro 1999

Chorão being a master of the unfinished in his paintings, the question of meaning, which the canvasses open to the observer, does not result in a trivial experience, part of a social game; it is not part of a project here or an idea to be illustrated, the artist is also the observer of his own work, which is constructed like a question about the act of its own creation and offered to the interested viewer and available in order to extend it. Remembering the creative journey which, throughout the 90s, illustrated the consistency of an already large body of work with renewed awareness, it is particularly gratifying to move among pictures which continue to be landscape, still life or an intriguing symbiosis between interior and exterior.
Alexandre Pomar, Expresso, 30 January 1999


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Esta é uma obra que nunca renega a sua raiz, que a repensa e que nunca a esconde, pois, quadro a quadro, a vai mostrando e assim, quadro a quadro, a transforma, com o rigor, com a felicidade que busca e que encontra, no prazer que lhe dá, no prazer que nos dá, o acto de pintar, o acto de ver surgir e continuar a pintura.
José Luís Porfírio, Expresso, 6 Fevereiro 1999

This is work which never denies its own roots, reflecting on them and never concealing them, as it, picture by picture, reveals them and in this way, picture by picture, transforms them, rigorously and with a felicity which it both seeks and finds, into the pleasure it gives, the pleasure it gives us, the act of painting, the act of seeing painting emerging and continuing.
José Luís Porfírio, Expresso, 6 February 1999


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Um dia, ao entrar no atelier de Pedro Chorão, senti que a luz comandava o cenário e que as manchas brancas no soalho, somadas às telas cruas e aos papéis craft, me contavam uma história, me sugeriam um filme, me acenavam o desenho do bom gosto e da melancólica espera do pintor. O pintor chegou e era de facto o único protagonista possível para aquele espaço, ele próprio vestia-se de bege, tinha uma camisa branca, uns sapatos de castanho vivo – e os olhos azuis, o rosado da pele, ou a cor simultaneamente quente e já cinza dos cabelos, tudo isso conferia solidez ao meu olhar, à sensibilidade de o ver naquela manhã. Percebi então, olhando em volta, observando as matérias e os materiais que baseavam física e tecnicamente a linguagem plástica de Chorão – desenho, colagem, pintura – como era impertinente da nossa parte decidir juízos redutores, de gestualismo ou repentismo, sobre a matinal espera daquela magnífica escassez. Relemos o que outros escreveram sobre o autor, o que eu próprio já publiquei em livro e artigos, e descobrimos todos um consenso sensato, entre diferenças naturais, entre cada respiração, cada forma e o espaço inteiro. Pedro Chorão sempre tem sido um artista humilde e sereno, que dispensa as grandezas do marketing e o tráfico de influências: costuma dar importância maior aos afectos – e eu próprio experimentei isso quando escrevi um livro sobre ele.
Rocha de Sousa, Jornal de Letras, 21 Agosto 2002

One day, going into Pedro Chorão's studio, I felt that light was dominating the setting and that the flecks of white on the floorboards, in addition to the bare canvasses and the paper craft, were telling me a story, suggesting a film, pointing out to me the quality of the painting and of the melancholy expectancy of the painter. The painter arrived and was, in fact, the only possible protagonist for this space, himself dressed in beige, with a white shirt and light brown sandals – and the blue eyes, the rosiness of his skin, and the colour at once warm and yet already grey of his hair, all this conferred solidity in my eyes to the sensitivity of the images of that morning. Looking around I then realised, observing all the substances and materials which are the physical and technical base of Pedro Chorão's plastic language – drawing, collage, painting – how inappropriate it was on our part to make reductionist judgements, about gesturalism or outburst, about the matinal hope of this spendid spareness. Let us read again what others have written about the artist, what I myself have published in in books and articles, and we all find a balanced agreement between natural differences, between each breath, each shape and the entire space. Pedro Chorão has always been a calm and unpretentious artist, who can do without overblown marketing and peddling of influence : he attaches a greater importance to feelings – and I experienced this personally when I wrote a book about him.
Rocha de Sousa, Jornal de Letras, 21 August 2002


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"Com a possível excepção de alguns trabalhos mais antigos, a regra deste desenho e desta pintura sobre papel, é sempre, "Menos é Mais", na contínua economia dos meios, na simplicidade de cada solução, na contenção e simultânea vibração dos espaços e das formas."
"A Medida Certa" sobre a exposição retrospectiva do trabalho sobre papel na "Casa da Cerca", Almada, Expresso, 6 Julho 2002

« With the possible exceptions of some older works, the rule of this drawing and painting on paper is always « less is more », in the continual economy of means, in the simplicity of each solution, in the containment and simultaneous vibration of spaces and shapes. »
"A Medida Certa" about the retrospective exhibition of works on paper in the "Casa da Cerca", Almada, Expresso, 6 July 2002


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E a imensa dedicação de um homem que, nesta pândega terra de ratos sábios, há trinta anos trabalha sem se dar ares, sem se intimidar nem deprimir, apenas pela razão profunda que no seu trabalho está, tão sério e leve como uma balada de Schubert, mestre do segredo. E o que eu devia era ter dito, no colóquio: "voltando atrás, voltando ao princípio". Era, vejo-o agora, a única resposta: "desenhando".
Jorge Silva Melo, Publico, Mil Folhas, 27 Julho 2002

It is the immense dedication of a man, who in this « brave new world » of learned idiots, has been working for thirty years, without giving himself airs, without being either intimidated or disheartened, for the deep-seated reason that in his work he is, as serious and as light as a Schubert ballad, a master of concealment. In a seminar what I would have said was « going back, returning to basics ». There was, I see now, only one response: «drawing».
Jorge Silva Melo, Publico, Mil Folhas, 27 July 2002


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Pinturas que usam muito pouco para conseguirem totalidades e, espantosamente, conseguem... Utiliza, como se disse, poucos elementos e recusa, em geral, os truques comuns da espectacularidade, mas não se nega aos mais loucos saltos.
Jacinto Lucas Pires, artigo referente à exposição individual no Teatro Taborda, A Capital, 3 Março 2005

Paintings which use very little to achieve their totality and, amazingly, succeed… He uses, as said, very few elements and rejects, in general, those tricks common to eye-catching displays, but he never refuses to take risks.
Jacinto Lucas Pires, article about the solo exhibition in the Teatro Taborda, A Capital, 3 March 2005


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Cada obra de Pedro Chorão começa e é sempre recomeço de outros percursos igualmente despojados, é sempre começo que revela do fim de muitos trabalhos idênticos, poética suspensa, ritmada e terminada quando a palavra mal se iniciara, resto, pingo de tinta, recorte de papel sobre papel, metade de um ícone moderno salpicado de um gesto. Pensando na oficina, cada pincelada de Pedro Chorão parece rápida, gestual, instantânea e profundamente hábil. Sem desmentir tais sensações, que são sobretudo a ilusória dedução do olhar antes de passar para o domínio do ver, a certeza científica daquele fazer, com o testemunho do próprio artista, é que todo o arranque das acções pictóricas pode implicar uma longa espera diante da tela ou do papel vazios. As rarificações de figuras geométricas ou similares aproximam-se, em vários casos, do limite absoluto, ilustram a absurdidade do ser.
Rocha de Sousa, Jornal de Letras, 26 Abril 2005

Each of Pedro Chorão's works starts and always restarts from different paths, all equally bare, it is always a start which shows, from the end of many identical, minimal works, suspended poetics, rythmic and finished when words hardly begin, rest, a drop of paint, paper cut-outs on paper, part of a modern icon spattered by a gesture. Thinking of the studio, each of Pedro Chorão's brushstrokes seems fast, gestural, instantaneous and profoundly easy. Without denying such sensations, which are, however, above all a false conclusion reached by looking before moving into the sphere of seeing, the scientific certainty of this way of working, according to the artist himself, is based on the fact that the start of a picture often involves a long wait in front of the empty canvas or paper. The reduction of geometric or similar figures comes close, in some cases, to the absolute limit, illustrates the adsurdity of being.
Rocha de Sousa, Jornal de Letras, 26 April 2005


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Há obras que estão ou parecem estar sempre a começar, reinventando de cada vez os gestos de que se fazem e as marcas, as manchas, os sinais que se lançam ao papel. Reconhecemos a leveza luminosa de um azul que é único, o sereno grito de um laranja, os acodes entre cinzentos ou castanhos... Fazem parte de um mesmo exercício que nunca se converte em sistema, que constantemente se inventa e se desaprende, para estar sempre a principiar, com uma frescura inesgotável.
Alexandre Pomar, referente à exposição individual  "Vintage+Obras Recentes", Galeria João Esteves de Oliveira, Lisboa, Express, 12 Março 2005

There are works which are, or which seem to be always starting anew, reinventing each time the gestures of which they are made and the marks, the areas of colour, the signals that are thrown onto the paper. We recognise the luminous lightness of a blue which is unique, the serene cry of an orange, the harmony between greys or browns……. They are all part of the same exercise, which never turns into a system, which constantly invents itself and unlearns itself, in order to be always starting anew, with an inexhaustible freshness.
Alexandre Pomar, referring to the solo exhibition "Vintage+Obras Recentes", Galeria João Esteves de Oliveira, Lisbon, Express, 12 March 2005


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Nesta arte em que parece não haver rede alguma, pousando apenas, inacabada, nua, invulgarmente discreta, lá vão indo os dias e os dias, a linha do horizonte, a luz reflectida, a luz reflexiva, um pouco de azul descendo, o que resta dos beijos roubados, a sombra doce das árvores e a imensa paisagem da vida, a contemplada, distante planície. Se o caminho sempre em mutação de Pedro Chorão é tão comoventemente vivido é porque a sua carne viva não é a que vemos no talho, nem a sua ferida sangra; ele sorri da vida passada, brinca, recomeça, surge, ressurge, retoma, apolíneo, austero, sensível, volta, sem pathos, sem a hipótese de espectáculo ou narcisismo: são linhas e manchas da vida cruzada, pegadas, a aérea transformação da luz, a leve transição do presente em passado, memórias ternas, sozinhas e límpidas, a dor é flor do dia que acaba indo-se, éter.
Jorge Silva Melo, catálogo da exposição de desenho de Pedro Chorão na Galeria Esteves de Oliveira, Lisboa, Janeiro 2005

In this art, which seems to have no supporting net, barely resting, incomplete, naked, remakably sober, days and days go by, the line of the horizon, the reflected light, the reflexive light, a little blue coming down, the remains of stolen kisses, the fresh shade of the trees and the immense landscape of life, contemplated, a distant plain. If Pedro Chorão's constantly changing path is so movingly vivid, it is the reason why his living flesh is not what we see at the butcher's, nor is his raw blood ; he smiles at the past, plays, restarts, appears, reappears, returns, Apollonian, austere, sensitive, repeats himself, without pathos, without any possibility of display or narcissism : these are the lines and markings of the struggle of life, rooted, the aerial transformation of light, a gentle transition from the present to the past, tender memories, lonely and pure, pain is a flower that vanishes with the day, ether.
Jorge Silva Melo, catalogue to the exhibition of Pedro Chorão's drawings in the Galeria Esteves de Oliveira, Lisbon, January 2005


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As cores (alguns azuis vermelhos, cinzas) são só de Pedro Chorão, mesmo quando as encontramos noutros lugares; a pincelada bem visível, leve e áspera às vezes, com densidade e tempo próprios, alarga-se a um restrito círculo de pintores maiores (como Guston, Johns, Arikha). Estas últimas obras agora expostas afastam-se de algumas pistas narrativas e de referências de género (paisagem, natureza morta) que estiveram presentes nos anos 90, e também deixaram para trás especulações formais ou espaciais anteriores. São agora menos "decifráveis", mais livres, mais intensas, mais profundas.
Alexandre Pomar, Expresso, 25 Novembro 2006

The colours (reds, blues, greys) can only be Pedro Chorão's, even when we see them in other places ; the visible brushstroke, light and at times uneven, with their own density and tempo, make him part of a restricted circle of major painters (like Guston, Johns, Arikha). These most recent works in the current exhibition have moved away from certain narrative paths and genre references (landscape, still life) that were present in the 90s, and also have left behind formal speculation and previous spaces. They are now less « decipherable », freer, more intense, more profound.
Alexandre Pomar, Expresso, 25 November 2006


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No quadro actual, Pedro Chorão é um dos mais qualificados autores quanto ao despojamento da pintura, quer pelo que determina em termos da sua desertificação no sentido da ausência e da solidão, quer por aquilo que se aproxima de uma esplendorosa representação do vazio. Pedro Chorão, poeta da escassez, tem as suas mais sólidas aprendizagens nessa fase da transformação do pensamento Ocidental. A arrumação dos meios pictóricos na quantidade do essencial. É nesta problemática da economia dos meios que Pedro Chorão se move.
Sentado no vazio que tanta vez escolheu, o pintor como que nos dispensa da contemplação. A grande parte deste tipo de poetas, dos que chegaram a este ponto de nudez e de síntese, praticando uma espécie de avanço monástico pelas veredas sem fim à vista, não se detém aos primeiros passos. E enganam-se os que pensam que eles são apenas sumários: a memória deles, pesada e cheia como dizia Juan Gris, afirma a grandeza ou a qualidade da sua escrita: um dedo representando o vazio na areia do caminho.
Rocha de Sousa, JL, 4 Dezembro 2007

In the current art scene, Pedro Chorão is one of the painters most skilled at stripping a picture to its bare essentials, whether it be in what defines the sense of absence and of solitude in terms of his desertification, or in something approaching a radiant representation of emptiness. Pedro Chorão, poet of austerity, has had his most formative learning experiences during this current phase of change in western thought. The arrangement of the pictorial means in the measure of the essential . It is within this problematic of economy of means that Pedro Chorão works. Seated in the emptiness which he so often chose, it is as if the painter were excusing us from contemplation. A great many of this type of poet, those who have arrived at this point of nakedness and synthesis, practising a sort of monastic advance along paths with no end in sight, do not spend time on the first steps. And those who think that they are just brief are wrong : the memory of them, heavy and full as Juan Gris said, asserts the greatness or the quality of their writing : a finger representing the emptiness in the sand of the path. Rocha de Sousa, JL, 4 December 2007

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...São feitas de quase nada, vibrações mínimas, variações, modalidades, e vai de uma a outra uma inquietante ansiedade, a voluptuosa rapidez do pincel amachucando as tintas, mas também ouvimos a serenidade do continuum, estamos num silêncio "da corrupção separado", sem amarras, sem outra glória do que a sua existência, sem outro amanhã que não o seu, terra, areia, gesso ou céu, noite agitada a que calmíssima maré se sobrepõe. Há, neste Pedro Chorão, o rumor da manhã perto do mar, tudo é tão pouco e só o que é necessário, tudo é "é de nenhuma coisa feito". E a manhã acende-se sobre a dor.
Jorge Silva Melo, apresentação da exposição na Giefarte, Fevereiro 2008

...They are made of almost nothing, minimum vibrations, modality, and a disturbing tension goes from one to another, the voluptuous speed of the brush crumpling the paint, but we also see the calmness of the continuum, we are in the silence « of detached seduction», without moorings, without any other glory than its own existence, without any other tomorrow that is not its own, earth, sand, plaster or sky, a restless night that is superimposed on the calmest tide. There is, in this Pedro Chorão, the sound of a morning by the sea, everything and so little and only what is necessary, everything is « made of nothing ». And morning lights up the pain.
Jorge Silva Melo, launch of the exhibition in Giefarte, February 2008


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Pedro Chorão continua fiel ao seu modo de formar, num ponto expressivo que vem de longe e se renova no paradoxal recurso ao mundo lexical de sempre. A turbulência aparente do fazer, entre fronteiras, não retira a estas peças o seu carácter pacífico, serial, fragmentos suburbanos em zonas que apelam no sentido de lugares meridionais, anunciação da luz fresca da manhã, forma aberta, dizendo tudo em quase nada. Pintura "sem amarras" exteriores, Pedro Chorão dá-nos a ver e a sentir, como refere Jorge Silva Melo, a terra, a areia, o gesso ou o céu. É bom confrontar pontos de vista, sobretudo num autor tão estimulante e surpreendente pelos escassos recursos que manipula.
Rocha de Sousa, JL, 26 Março 2008

Pedro Chorão remains faithful to his own mode of expression, with a distinguishing point which comes from far away and is renewed in a paradoxical resort to a timeless lexical world. The apparent turbulence of their creation, within boundaries, does not take away the peaceful character of these pieces, serial, suburban fragments in areas which appeal to a sense of places in the south, an annunciation of the fresh morning light, an open form, saying everything with almost nothing. Painting « without support » from the exterior, Pedro Chorão gives us something to see and to feel, as Jorge Silva Melo says, earth, sand, plaster or sky. It is good to compare points of view, above all about an artist who never fails to stimulate and surprise with the spare means he uses.
Rocha de Sousa, JL, 26 March 2008